segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Perdido cometa: ficção adolescente (ou não)

Onde você estava no dia 27 de abril de 1986, quando o cometa Halley, do espaço, espiava a humanidade aqui embaixo?
Eu estava sentada num muro, na rua onde morei por mais de 20 anos.
Naquela noite eu ainda tinha 18. E estava sentada naquele muro, de madrugada.
Chorando.
Eu sempre detestei anos pares porque nasci num ano que não terminou, num dia par, num mês par. Mas, 1986 foi ímpar num certo sentido, mesmo porque o tão badalado cometa Halley estava por lá, desenhando sua fatídica órbita celeste, quase imperceptível, lá em cima, enquanto eu recebia a pior notícia de toda a minha vida - até aquele momento.
No calendário, 1986, apesar de par, foi, de certa maneira, singularmente ímpar.
E sem direito à contestação, segue (romanceadamente) o que aconteceu (ou não).
- A Clarice tá grávida e a gente vai ter que casar.
- Como assim gravida? Como assim ‘vai ter que’?
- Tendo. Simples assim.
- Mas vocês nem eram mais namorados, Fer!
Fernando gostava de dizer as coisas com tamanha objetividade que perto delas, uma injeção de Benzetacil parecia um carinho na bunda. Fazia pouco mais de um ano que a gente tinha se beijado pela primeira vez. Feriado de Finados, debaixo da maior chuva, na praia. Nem lembro direito como aconteceu, mas quando me dei conta, estava praticamente dependurada pro lado de fora da janela do carona, sendo beijada por ele, ajoelhado na calçada. Tudo por causa de uma música do Willy Nelson e da minha paixão arrebatadora pelo Fernando,  sete anos mais velho do que eu. Os caras da turma do Fernando eram alvos das paixões adolescentes. Sabiam cantar Beatles, dirigiam o próprio carro e diziam as melhores piadas. Difícil não se apaixonar, ainda mais aos 17 anos de idade. E era assim que eu estava, arrebatada, um ano depois, naquele dia de cometa Halley, em cima do muro, com o Fernando na minha frente, com as mãos nas minhas coxas, dizendo aquilo e chorando também. Uma situação ímpar, num ano par.
- Casar, Fer?
- Casar. Eu gosto dela e agora ela ta grávida. E mora no interior, sabe como é? Todo mundo já sabe, todo mundo fala.
- Cara, eu nem sei direito o que eu tô sentindo agora. Não dá pra explicar.
- Ah, eu não queria que isso fosse assim. Eu não queria terminar assim, te magoando.
- Me magoando, Fer? Isso acabou comigo. Justo no dia desse maldito cometa passar por cima da gente você vem e me diz que a Clarice ta grávida e que vocês vão ter que casar? Não dava pra esperar pra dizer isso amanhã? Agora eu nunca mais vou esquecer de hoje, a única vez na minha vida que eu garanto lucidez pra ver o cometa passar. Quando foi isso?
- Isso o quê?
- A gravidez. Quando foi que ela engravidou?
- Tem quatro meses. A gente tinha brigado, lembra? Daí, fui pra Fim-de-Mundo e encontrei com a Clarice. Eu bebi pra cacete naquele dia e agente acabou transando.
- Sei, um episódio de 'recordar é viver'... E nem pra me contar, Fer?
- Mas não tinha importância, quer dizer, não teve. Tanto que quando eu voltei, um mês depois, a gente ficou junto de novo.
- É, mas foi ela que ficou grávida, não eu.
- E agora?
- Você já disse. Vai ter que casar com ela. E tomara que sejam bem felizes porque eu não tô mais feliz – decretei, empurrando Fernando pra longe e descendo do muro, com raiva.
Ele foi mais rápido e me puxou pelo braço.
- Espera.
- Que foi agora, vai dizer que são gêmeos ou vai me convidar pra ser a madrinha?
- Não são gêmeos, nem vou te convidar pra ser madrinha. Você acha que eu queria isso pra minha vida?
- E pra minha? Heim? Tem dó, Fer, melhor acabar com isso logo, vai!
- É que eu te amo.
Tive que rir. Definitivamente, o dia do Halley seria inesquecível.
- Pra quê isso agora?
- Porque é verdade. Eu te amo.
Fiz uma força descomunal pra me manter firme nas pernas, afinal era a primeira vez na vida que alguém me dizia aquilo. Eu sonhei com esse momento a vida toda: o Fer, o grande amor dos meus 18 anos, o cara mais velho por quem eu arrastava um caminhão, dizendo ‘eu te amo’ pra mim!
Mas a que preço?
Então, alguma coisa bem racional estava alerta naquela madrugada de abril, enquanto eu segurava o queixo, as lágrimas, um soco e um iminente descompasso cardíaco. Eu também te amo, filho da puta, mas você nunca vai ouvir isso de mim.
- Se manda, Fer, vai cuidar do casamento e do teu filho com a Clarice. E vê se solta o meu braço porque tá me machucando.
Ele hesitou meio segundo, mas acabou me deixando ir embora. Já não restava coisa alguma daquela noite, a não ser o pálido Halley – uma luzinha de quase nada - orbitando entre o céu e a Terra.
Mundos paralelos.
Fernando e eu.

12 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Glup!

Desculpa, me deu um engasgo aqui!

Olha, eu pretendia começar com uma piada dizendo que eu provavelmente estava tomando minha tuta (mamadeira), enquanto o Halley passava, mas, tipo assim, perdi! Tu me fizeste perder a piada Carolina!!! Não é a toa que tua santamãezinha volta e meia tem uns chiliques quando lê o que tu escreve por aqui.

Que coisa!

Bjo bjo!

CarolBorne disse...

Gracias, chica del cielo! Muchas gracias!

marilisa disse...

Glup, glup...
Também engasguei aqui Anjo! Não sabia que o cometa de Halley tinha sido assim tão marcante na tua vida!!
Momento único e inesquecível.
bj

CarolBorne disse...

Há muitas coisas marcantes na minha vida que eu jamais contei. Viver é dar a cara a tapa, então essas histórias vão se tornando públicas na medida em que eu vou ficando mais forte pra contá-las.

Tiago disse...

gente do céu!
sem mais para o momento.

CarolBorne disse...

:)

Tiago disse...

tá, só uma coisa: sensacional.
não o fato, mas a narrativa.

CarolBorne disse...

Pô, Tiago Days, assim eu vou ficar me achando. :)

Arieta Pheula disse...

Nossa!!! E eu aqui suspirando por um filho da puta qualquer...
Sei que é clichê, mas são essas coisas que fazem a gente ser o que é. São essas "filhadaputices" que formam o caráter e o jeito de uma pessoa ver o mundo. Não é a toa que tu é uma mulher forte.
Sem mais palavras.

Beijos.

CarolBorne disse...

Arizinha, minha linda, eu me emociono com as tuas palavras. Não sou tão forte assim, mas vindo de ti, meu cálice transborda! Obrigada por tanto carinho!

marlenemourão disse...

Carol,
cheguei ao seu blog porque cliquei: próximo blog...Aí gostei.
Gostei.
Um abraço.

CarolBorne disse...

Marlene, que bom que gostou! Venha sempre, obrigada pela visita! :)