Há alguns anos, durante os preparativos do chá-de-panela de uma 'amiga' casadoira que vou chamar de X, uma outra amiga Y, veio me comunicar que eu não seria convidada porque estava 'avulsa'. "Sabe como é, a X não quer convidar nenhuma amiga 'sozinha' porque ela acredita que podem colocar olho grande no casamento. Achei que eu devia te alertar", me disse Y com um certo constrangimento. Diante de tal sentença, capaz de provocar uma crise de indigestão em estômagos mais sensíveis, peguei meu presente de volta. X não teria minha incômoda presença 'a granel' na festinha, mas também não ia ganhar o mimo que comprei com carinho.
Lembro de uma outra história, um diálogo entre duas mulheres:
- Fulana casou.
- Pois é, mas olha com Quem...
Independente do olho gordo de quem quer que seja, o casamento de X não durou, assim como os três casamentos de Y. Fulana também está à deriva, pois Quem nunca foi flor que se cheire. Quanto a mim, continuo solteira, linda, loira e fazendo a bile alheia revirar nas vesículas e escapar feito veneno pela boca. Se nós, as solteiras, incomodamos tanto, 'por que te casas?'
Essa semana li uma reportagem da jornalista Giuliana Bergamo, na Veja, que fala justamente da solidão. "A solidão que nos protege", com o psicólogo americano John Cacioppo, especialista no tema, fala, entre outras coisas, que não importa a quantidade de amigos, sim a qualidade da companhia. De acordo com o texto, a solidão é 50% hereditária e 50% circunstancial, mas é a genética que determina o quão dolorosa pode ser a sensação de isolamento. O grau de sensibilidade de cada um é o diferencial. Quem é mais sensível está sempre buscando agregar, mas os mais 'atirados', como cita Cacioppo, são os que têm coragem de explorar novos ambientes. O texto fala ainda que os dois perfis são necessários para a preservação da espécie.
É possível estar casado e se sentir mais solitário do que o amigo solteiro 'atirado' que na sua condição de ser avulso, pode correr o mundo e conviver com mais pessoas, conhecer e explorar outros horizontes. É aí que voltamos ao cenário de X, Y e Fulana, que escolheram casar e tiveram a 'sorte' de encontrar pares, ainda que por pouco tempo, para dividir o armário do banheiro.
Eu pertenço ao grupo dos menos sensíveis à solidão, mas sinto a necessidade de ter um lugar para voltar depois de explorar o mundo. Eu gosto de poder me distanciar para vivenciar um momento meu e, assim, preservar as relações com as pessoas. Acredito que isso é salutar. Cacioppo fala que "para manter um bom contato com os outros, você precisa se distanciar delas de vez em quando. As pessoas não trazem apenas coisas boas; elas têm demandas. Às vezes você precisa dar um passo para trás, a fim de reequilibrar-se".
Cada um tem a sua vida e faz suas escolhas. E para deixar X e Y mais contentinhas, em nenhum momento da minha existência me imaginei casada, demandada, invejando a solteirice dos outros. Nasci para as paixões avassaladoras, as tempestades. Além dos meus bons e fiéis amigos de verdade, irmãos que escolhi, é perto do mar que me sinto completa. Na minha parca concepção de sobrevivência, é preciso ir para saber voltar. Simples assim.
Não me invejem.
4 comentários:
Até voltei ao topo do texto para me certificar de que a palavra amiga tinha sido grafada entre aspas. Porque amizade verdadeira é uma coisa tão rara, mas TÃO rara, mas tão raríssima, que não é qualquer um chazinho de panela que vai expor o tendão de aquiles da outra pessoa ao vento. Não mesmo!
Eu fiquei meio chocada com isso. Q horror, ainda bem q essas pessoas logo se revelaram e saíram da sua vida.
Q atitude triste.
Beijos da Taís.
Pois é... Pertencer ao grupo dos avulsos, dos solteiros, ser menos sensível à solidão, mais atirada pra vida... Tudo isso atrai muitos olhares curiosos. Uns sentem inveja dessa nossa capacidade. Outros sentem pena simplesmente porque não entendem que possamos conviver harmoniosamente com a solidão e sermos felizes. Tudo bem, não precisam entender. Apenas saibam que não somos uma ameaça.
Bjocas!
Antes só que mal acompanhada. E digo isso com a autoridade de quem já experimentou todas as 'vagas', menos de viúva...infelizmente.
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